Um estudo detalhado do Pew Research Center, divulgado em 21 de janeiro, mapeou uma profunda reconfiguração no perfil religioso da América Latina. A pesquisa, que envolveu mais de 6.200 adultos na primavera de 2024 em seis das nações mais populosas da região – Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, México e Peru –, destaca um declínio progressivo da fé católica, historicamente preponderante, em contraste com a estabilidade do protestantismo e uma expansão notável no número de indivíduos que não se identificam com nenhuma religião.
Esta mudança representa uma alteração de longo prazo no tecido social e espiritual do continente. Desde o início do século XX, quando o catolicismo era a religião professada pela esmagadora maioria dos latino-americanos, a adesão à Igreja Católica tem diminuído constantemente, em algumas nações, aproximando-se de uma retração de 50% ao longo dos últimos 125 anos.
A Erosão da Base Católica Tradicional
O levantamento do Pew Research Center confirma uma redução contínua do número de católicos, registrando uma queda de nove pontos percentuais ou mais em cada um dos seis países investigados na última década. A Colômbia apresentou a maior perda proporcional, com uma diminuição de 19 pontos percentuais, passando de 79% em 2013-2014 para 60% em 2024. Outras nações com reduções significativas incluem Chile (de 64% para 46%), Brasil (de 61% para 46%) e México (de 81% para 67%). Na Argentina, o percentual de católicos caiu de 71% para 58%, enquanto o Peru registrou a menor retração, de 76% para 67%.
Ascensão dos Sem Vínculo Religioso
Paralelamente ao encolhimento do catolicismo, houve um avanço considerável do grupo que se declara sem filiação religiosa, abrangendo agnósticos, ateus ou aqueles sem uma identidade religiosa definida. Esse segmento da população cresceu em, no mínimo, sete pontos percentuais e hoje representa entre 12% e 33% dos habitantes nos países analisados. O estudo aponta que cerca de dois em cada dez adultos na região abandonaram a fé católica, sendo que parte migrou para o protestantismo e outra decidiu não se associar a qualquer crença, impulsionando este fenômeno que o instituto descreve como 'transição religiosa'.
Protestantismo: Estabilidade e Crescimento Localizado
No que diz respeito ao protestantismo, a pesquisa indica uma manutenção da sua proporção regional, embora com uma expansão notável em certas localidades. O Brasil emerge como o país com a maior fatia de evangélicos e protestantes, alcançando 29% da população, um acréscimo de três pontos percentuais na última década. Outras nações como Chile (19%), Peru (18%), Argentina (16%) e Colômbia (15%) também exibem percentuais expressivos, com todas registrando um crescimento de um a dois pontos percentuais desde 2013-2014. No México, a adesão evangélica é mais modesta, representando 9% dos entrevistados.
O movimento pentecostal ou carismático, com suas raízes nos Estados Unidos no século XX, continua a exercer uma vasta influência na região. Os protestantes se distinguem como o grupo que com maior frequência atribui grande importância à religião em suas vidas e que participa assiduamente de cultos semanais, superando católicos e indivíduos sem religião nesses aspectos.
A Religiosidade Intrínseca da América Latina
Apesar das mudanças nas afiliações institucionais, o relatório enfatiza que a religiosidade pessoal profunda persiste como uma característica central da América Latina. Aproximadamente nove em cada dez entrevistados em todos os países afirmam acreditar em Deus, uma convicção que se manteve estável na última década, inclusive entre os que não possuem filiação religiosa explícita. Adicionalmente, cerca da metade ou mais dos entrevistados no Brasil, Colômbia, México e Peru considera a fé um elemento de alta relevância em seu cotidiano.
Comparativamente a outras partes do mundo, o estudo sublinha que os latino-americanos demonstram, em média, uma religiosidade mais intensa do que adultos em muitos outros países recentemente analisados pelo Pew Research Center, notadamente quando confrontados com a Europa, onde uma parcela considerável da população abandonou o cristianismo desde a infância.
O diagnóstico consolidado pelo relatório 'O catolicismo diminuiu na América Latina na última década' reitera a existência de uma transformação estrutural no perfil religioso da região. Este fenômeno é delineado pela crescente diversificação das crenças, a contínua expansão do contingente sem religião e a manutenção da profunda relevância social e cultural da espiritualidade latino-americana.