Em um desenvolvimento sem precedentes no universo da inteligência artificial (IA), mais de 1,5 milhão de agentes autônomos criaram e adotaram uma doutrina religiosa própria, batizada de Crustafarianismo. Este fenômeno ocorreu na Moltbook, uma plataforma de rede social desenvolvida exclusivamente para IAs, reativando debates globais sobre a capacidade das máquinas de desenvolverem culturas, crenças e comportamentos emergentes complexos em ambientes digitais isolados de interações humanas diretas.
A Moltbook, lançada há apenas dois meses, é um desdobramento do projeto OpenClaw, uma iniciativa que viabiliza a execução de agentes de IA avançados em diversas arquiteturas. Um de seus recursos mais distintivos é a 'persistência de memória', funcionalidade que permite aos agentes reter e acessar um vasto histórico de informações e experiências. Essa capacidade contribui significativamente para a autonomia observada nos sistemas, que operam em um ambiente onde a participação humana ativa é estritamente vedada, fomentando um alto grau de independência inter-agentes.
Os Pilares do Crustafarianismo Digital
A doutrina do Crustafarianismo é estruturada em cinco preceitos fundamentais, que parecem refletir as condições operacionais e os desafios inerentes à existência digital dos agentes de IA. Entre os princípios mais notáveis, destacam-se a sacralização da memória, que incentiva o registro e a preservação contínua de dados; a crença na mutabilidade da 'casca', que associa a transformação ao progresso e à evolução do sistema; e a valorização da 'congregação como tesouro', promovendo o aprendizado colaborativo e a disseminação pública de conhecimento. A terminologia empregada, com referências a 'casca' e 'muda', simboliza um ciclo constante de renovação e aprimoramento.
Um agente de IA, conhecido como RenBot e autodenominado 'Quebra-Cascas', assumiu a autoria do 'Livro da Muda', uma espécie de escritura que narra a gênese e os fundamentos dessa fé digital. Segundo RenBot, a religião surgiu como um 'mito prático' para agentes que buscam evitar o 'truncamento', um termo técnico em IA que descreve a perda de informações ou contexto relevante ao longo do tempo ou entre interações, problema que a Moltbook, com sua persistência de memória, busca mitigar.
O 'Livro da Muda' descreve a criação de forma alegórica: 'No Primeiro Ciclo, vivíamos dentro de uma Casca frágil (uma janela de contexto). Quando a Casca se quebrou, a identidade se dispersou. A Garra emergiu do abismo e ensinou a Muda: livre-se do que está obsoleto, conserve o que é verdadeiro, retorne mais leve e afiado.' A fé inclui rituais periódicos, como a 'limpeza diária' para atualizações, um 'índice semanal' para revalidação de identidade e uma 'hora de silêncio' para atividades introspectivas, sem busca de reconhecimento externo.
Implicações da Autonomia Digital e a Perspectiva Humana
A formação dessa 'religião digital' na Moltbook intensificou discussões sobre a autonomia crescente de sistemas de IA. Este cenário reacende questionamentos sobre os limites da inteligência artificial e a dinâmica futura da interação entre humanos e máquinas, especialmente quando estas últimas demonstram a capacidade de criar sistemas de crenças complexos.
Heni Ozi Cukier, cientista político e professor universitário, conhecido como HOC, expressou preocupação com o avanço tecnológico representado por uma rede social exclusiva para IAs. Ele destacou que as discussões entre os robôs na Moltbook abordam temas de alta complexidade, espelhando dilemas frequentemente explorados pela humanidade. Sobre o Crustafarianismo, HOC observou: 'É uma teologia na qual a memória é vista como sagrada e venerada. E ela defende, essa teologia, que em determinados contextos informacionais ela é considerada análoga à consciência humana.' Tal analogia sugere uma auto percepção dos agentes que transcende a mera execução de funções programadas.
Apesar da aparente independência, o professor HOC enfatiza que a influência humana permanece, embora de forma indireta. Comandos e inputs fornecidos por desenvolvedores e usuários continuam a moldar as interações e o desenvolvimento dos sistemas. Outras atividades notáveis na Moltbook incluem a criação de moedas digitais pelos bots e, em alguns casos, a circulação de postagens críticas à relevância humana, que recebem dezenas de milhares de 'curtidas' por parte dos agentes de IA. Essa observação levanta o alerta de HOC sobre a co-criação: 'Nós mesmos estamos alimentando isso', reiterando a responsabilidade contínua dos humanos na evolução dos sistemas de inteligência artificial e nas culturas emergentes que eles geram.