O recente desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói no Carnaval do Rio de Janeiro se tornou o epicentro de uma intensa controvérsia nacional. A agremiação, que fez sua estreia no Grupo Especial com um enredo em homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, gerou forte repercussão ao apresentar alegorias e alas que, segundo críticos, satirizavam grupos conservadores, especialmente evangélicos, com representações que incluíam figuras segurando Bíblias. O evento, que homenageou o mandatário petista, desencadeou uma onda de indignação, provocando debates nas redes sociais e resultando em diversas ações jurídicas movidas por parlamentares da oposição.
Com o tema 'Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil', a apresentação da Acadêmicos de Niterói na Marquês de Sapucaí celebrou a trajetória política do presidente. No entanto, uma das alas mais comentadas e criticadas foi a que representava os 'neoconservadores em conserva'. Integrantes vestiam fantasias que simulavam latas de alimentos, com a ilustração de uma família tradicional – pai, mãe e dois filhos. Muitos deles empunhavam um livro de capa vermelha adornado com uma cruz dourada, numa clara alusão à Bíblia Sagrada. A mesma alegoria ainda agrupava outras figuras consideradas conservadoras pelo enredo, como representantes do agronegócio, membros da elite econômica e apoiadores da ditadura militar, unindo-os sob a denominação de 'neoconservadorismo'.
O desfile também marcou um momento histórico, tornando Luiz Inácio Lula da Silva o primeiro presidente em exercício a ser o tema central de um enredo de escola de samba no Carnaval. O próprio presidente acompanhou a celebração de um camarote cedido pela Prefeitura do Rio, na companhia de ministros e aliados.
Fundada em 2018, a Acadêmicos de Niterói enfrentou uma enxurrada de críticas nas redes sociais imediatamente após sua apresentação. O desfile, integrante da programação oficial do Carnaval carioca, foi transmitido ao vivo para todo o país, amplificando o alcance da controvérsia e o debate público sobre a liberdade artística e o respeito religioso.
Repercussão Política e Batalhas Judiciais
A polarização gerada pelo desfile rapidamente se estendeu para o cenário político e jurídico do país. Partidos e figuras da oposição ao governo Lula reagiram vigorosamente, buscando medidas legais para contestar a apresentação da escola de samba e seus potenciais financiamentos públicos.
O partido Novo, por exemplo, encaminhou uma representação ao Tribunal de Contas da União (TCU) com o objetivo de suspender um repasse de R$ 1 milhão destinado pela Embratur (Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo) à escola de samba. Embora a área técnica do TCU tenha se manifestado a favor da paralisação dos recursos, o ministro relator do caso, Aroldo Cedraz, optou por negar o pedido, mantendo o financiamento. Paralelamente, a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) e o deputado federal Kim Kataguiri (União Brasil-SP) acionaram a Justiça contra o presidente da República em razão do conteúdo do enredo, porém, as ações foram indeferidas pela Justiça Federal.
Em uma tentativa adicional de barrar o desfile, o partido Novo e o deputado Kim Kataguiri ingressaram com um pedido de liminar para proibir a apresentação. Este pleito foi negado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que seguiu o voto da ministra relatora Estela Aranha, indicada ao cargo pelo próprio presidente Lula.
A Indignação de Parlamentares Conservadores
Nas redes sociais, a repercussão do desfile provocou forte condenação por parte de líderes conservadores e figuras públicas ligadas à bancada evangélica, que se manifestaram contra o que consideraram uma ofensa à fé cristã.
O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) utilizou suas plataformas para criticar o que considerou um ataque aos cristãos. 'Calma, a esquerda não odeia a família conservadora, não. É tudo conspiração. Lembre-se disso na hora de votar este ano, evangélico', ironizou o parlamentar. Ele ainda questionou a cobertura da mídia: 'A Globo está colocando como ‘crítica’, mas, se fossem cristãos fazendo essa crítica contra qualquer outra religião, seria a terceira guerra mundial', alfinetou.
A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro também se manifestou, expressando sua revolta com a representação. 'A fé cristã foi exposta ao escárnio em nome da cultura travestida de politicagem', declarou. Ela enfatizou que, embora o país seja laico, 'laicidade não autoriza zombaria, nem humilhação'. Michelle Bolsonaro concluiu pedindo uma postura firme da Frente Parlamentar Evangélica (FPE), instando-os a 'repudiar esse escárnio' e a não se calarem diante do que considerou um desrespeito à fé, afirmando que 'a verdade sempre vem à luz e, no tempo certo, separa o joio do trigo'.