Durante uma de suas passagens por Jerusalém, Jesus de Nazaré protagonizou um dos milagres mais emblemáticos de sua jornada, conforme narrado no Evangelho de João (capítulo 5). O episódio ocorreu no Tanque de Betesda, localizado próximo à Porta das Ovelhas, onde uma grande multidão de enfermos se reunia. No local, Jesus curou um homem que há trinta e oito anos vivia em estado de paralisia, um feito que não apenas restaurou a saúde do indivíduo, mas também acendeu um caloroso debate com as autoridades religiosas da época devido à realização do ato em um Sábado.
O Cenário de Betesda: Entre a Esperança e a Competição
O Tanque de Betesda, cujo nome aramaico significa 'Casa de Misericórdia' ou 'Casa de Graça', era um complexo aquático com cinco pórticos, historicamente localizado no nordeste da antiga Jerusalém. Descobertas arqueológicas no século XIX confirmaram a existência de dois tanques adjacentes, sustentando a descrição bíblica. Era um local conhecido por atrair doentes, cegos, coxos e paralíticos, que ali esperavam por uma suposta intervenção divina: a agitação das águas, que, segundo a crença popular da época, indicava a descida de um anjo e curaria o primeiro a mergulhar.
Esse cenário, embora abrigasse uma esperança de cura, também era marcado por uma competição cruel. A busca pela salvação física transformava o ambiente em um embate pela velocidade e força, onde o mais necessitado frequentemente era preterido. O homem paralisado, que sofria há quase quatro décadas, era um reflexo dessa realidade, sem ter quem o ajudasse a entrar na água quando o fenômeno ocorria.
O Encontro e a Pergunta de Jesus
Ao se aproximar do paralítico, Jesus fez uma pergunta aparentemente retórica: 'Queres ficar são?' (João 5:6). Para o homem que vivia há 38 anos com sua enfermidade, a resposta parecia óbvia. Contudo, a questão de Jesus visava expor não apenas o desejo de cura física, mas a profundidade de sua condição, que incluía um profundo sentimento de abandono e dependência de terceiros. A resposta do enfermo, 'Senhor, não tenho homem algum que, quando a água é agitada, me ponha no tanque; mas, enquanto eu vou, desce outro antes de mim' (João 5:7), revelou sua vulnerabilidade e a crença de que sua cura dependia exclusivamente de auxílio humano e de um evento esporádico.
A Cura e a Controvérsia do Sábado
Sem recorrer aos rituais das águas, Jesus proferiu um comando direto e com autoridade divina: 'Levanta-te, toma a tua cama e anda' (João 5:8). Imediatamente, o homem foi curado, levantou-se e começou a andar, carregando sua esteira. Este ato de cura instantânea, testemunhado por muitos, reverberou pela cidade. No entanto, o milagre ocorreu em um Sábado, dia sagrado para os judeus, no qual o trabalho e o transporte de cargas eram estritamente proibidos pela Lei Mosaica, conforme interpretada pelas autoridades religiosas da época.
As autoridades judaicas, ao invés de celebrarem a cura, questionaram o homem por carregar sua esteira no Sábado, acusando-o de infringir a lei. Quando ele revelou que Jesus o havia curado e mandado que fizesse isso, a controvérsia se intensificou, direcionando-se a Jesus. Este evento destacou a tensão entre a autoridade divina de Jesus e as interpretações rígidas da Lei por parte dos fariseus, marcando um ponto de inflexão nas hostilidades contra Ele.