Uma acalorada discussão sobre a conduta das igrejas evangélicas em relação a casos de violência e abuso de mulheres e crianças ganhou destaque no cenário religioso brasileiro. O pastor Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo (ADVEC), manifestou-se publicamente para contestar as recentes declarações da pastora Helena Raquel. A controvérsia, que emergiu após a intervenção de Raquel no 41º Gideões Missionários da Última Hora, desencadeou um amplo debate envolvendo figuras eclesiásticas proeminentes, influenciadores religiosos e fiéis de diversas denominações pelo país, sublinhando a crescente demanda por transparência e responsabilidade dentro das instituições de fé.
A Voz da Pastora Helena Raquel
Durante sua pregação no Gideões Missionários, um dos mais significativos encontros do pentecostalismo nacional, a pastora Helena Raquel fez um apelo veemente. Ela instou mulheres que enfrentam violência doméstica, abuso psicológico ou outras formas de opressão a não silenciarem suas experiências dentro das comunidades religiosas. Raquel criticou abertamente a postura de alguns líderes que, segundo ela, recomendavam às vítimas a 'orar e suportar' em vez de buscar apoio e denunciar os agressores. Sua fala foi calorosamente recebida e impulsionou uma discussão crucial sobre o acolhimento e a proteção de vítimas no ambiente eclesiástico.
O Contraponto de Silas Malafaia
Em resposta, o pastor Silas Malafaia caracterizou as críticas dirigidas às igrejas evangélicas e seus pastores sobre abuso e violência como 'acusações genéricas'. Sem mencionar diretamente Helena Raquel em alguns momentos, ele expressou seu desacordo com a percepção de que as instituições evangélicas estariam protegendo agressores ou encorajando o silêncio das vítimas, pondo em xeque a validade de tais imputações.
Para sustentar sua argumentação, Malafaia divulgou trechos de uma reunião interna, datada por ele como 9 de março de 2026, onde mais de mil obreiros, conforme suas palavras, foram instruídos detalhadamente sobre os procedimentos em casos de pedofilia e agressão contra mulheres no contexto eclesiástico. Esta apresentação visou refutar as críticas, especialmente aquelas difundidas nas redes sociais. O líder enfatizou a seriedade com que tais crimes devem ser tratados, alertando: 'os senhores não brinquem com negócio de pedofilia, de violência contra a criança, violência contra a mulher'.
O líder religioso reforçou a diretriz de que as denúncias devem ser encaminhadas imediatamente às autoridades competentes. Ele exemplificou: 'Foi meu marido pego abusando do meu filho de 3 anos? Ele vai ser excluído e a senhora vai lá na delegacia. Não tenta botar pano quente nisso aí não'. Da mesma forma, em situações de violência doméstica, sua recomendação foi categórica: 'Ah, o marido tá espancando a mulher. O que que eu faço? Vai na delegacia'. Malafaia asseverou ainda que qualquer pastor ou membro que tente acobertar crimes desta natureza está em erro e deve ser responsabilizado legal e eticamente.
Contexto Amplo e Repercussões do Debate
Malafaia também destacou o papel histórico da igreja evangélica na recuperação de indivíduos em condições de vulnerabilidade e com histórico de comportamentos destrutivos, ressaltando a transformação de homens violentos em pessoas dedicadas à família como um testemunho frequente do evangelho. Ele defendeu que crimes como abuso sexual e agressão contra mulheres são fenômenos sociais que permeiam todos os setores da sociedade, não devendo ser atribuídos exclusivamente ao meio religioso. 'Pedofilia e espancamento de mulher, desde que o pecado entrou no mundo, o pecado tá aí. Tá em tudo que é lugar. Jornalistas, membros do poder judiciário, legislativo, executivo, pastores, padres e vai por aí afora', declarou.
O pastor expressou sua convicção de que há uma tentativa orquestrada de gerar preconceito contra as igrejas evangélicas e seus líderes, afirmando que 'o jogo é colocar um bloqueio, um preconceito na sociedade contra pastores e a igreja evangélica. Essa é a verdade. A coisa é mais profunda do que vocês possam imaginar nesse jogo para nos denegrir'. Ele também citou a pastora Marinês Coimbra, parafraseando-a ao dizer que 'no reino de Deus, confronto se faz às claras, correção se faz com verdade, justiça se faz com fatos. Insinuação não é coragem, é sombra, e sombra não combina com a luz do evangelho'.
Este episódio se insere em um contexto de debates cada vez mais frequentes no evangelicalismo brasileiro, abordando temas cruciais como a autoridade pastoral, a violência doméstica e o papel ético da igreja na sociedade. A ampla repercussão das declarações de Malafaia e Raquel reflete a demanda crescente por maior prestação de contas e responsabilidade por parte das instituições religiosas, alinhando-se a um movimento social mais abrangente de combate à violência de gênero e de proteção a menores.