Uma adolescente cristã paquistanesa de apenas 16 anos trava uma batalha judicial para anular um casamento e uma conversão forçada ao islamismo. Aneeqa Ishaq, de Lahore, foi sequestrada por um ex-colega de trabalho e mantida em cativeiro por seis meses, em um incidente que expõe a crescente vulnerabilidade de meninas pertencentes a minorias religiosas no país.
A saga de Aneeqa começou em um contexto de dificuldades financeiras familiares. Para auxiliar no sustento de seus pais e irmã, ela começou a trabalhar em um restaurante. Após aproximadamente três meses no emprego, um colega muçulmano, Majid Ali, iniciou uma campanha de assédio, pressionando-a para se casar com ele. Aneeqa, que se declarava cristã, rejeitou categoricamente as propostas, levando sua família a aconselhá-la a deixar o trabalho. Ela saiu do restaurante em agosto do ano anterior e, posteriormente, encontrou emprego como professora em uma escola infantil.
O cenário de perseguição se agravou drasticamente em 4 de janeiro deste ano. Enquanto se dirigia à igreja com sua irmã e uma prima, Aneeqa foi interceptada por Ali e outros dois homens em um carro. Sob a ameaça de uma arma, ela foi forçada a entrar no veículo e, logo após, perdeu a consciência, presumivelmente devido a um pano que cobriu seu rosto.
Levada para um local a cerca de 420 quilômetros de Lahore, a adolescente foi cercada por Ali e outros homens que a intimidaram, afirmando que sua família jamais a encontraria. Em seguida, foi forçada a proferir a Shahada, a declaração de fé islâmica, e a assinar documentos, incluindo uma certidão de casamento e uma declaração afirmando que sua conversão e união com Ali haviam sido por vontade própria. Ela relatou ter sido coagida a registrar suas impressões digitais em papéis que não pôde ler.
Nos seis meses seguintes, Aneeqa permaneceu em cativeiro, sendo transferida entre diferentes locais e submetida a agressões físicas quando implorava para retornar à sua família. A oportunidade de resgate surgiu no início de julho, quando conseguiu acesso a um telefone celular e contatou sua irmã, compartilhando sua localização em Bahawalnagar via WhatsApp.
A família agiu rapidamente, buscando o auxílio do advogado cristão Zunaira Patrick. Com a intervenção da polícia local, Aneeqa foi resgatada. Em depoimento perante um tribunal, a adolescente narrou os horrores que viveu, e o juiz autorizou seu retorno imediato à família em Lahore.
A Batalha Legal e a Persistência do Trauma
Zunaira Patrick informou que uma petição foi protocolada na justiça para anular o casamento forçado. Apesar da clareza dos fatos, a família de Aneeqa está hesitante em prosseguir com acusações criminais contra Majid Ali, uma decisão compreensível diante do profundo trauma e do medo de retaliação. Como medida de segurança, a família já mudou de residência e de número de telefone, temendo serem rastreados pelos agressores.
O advogado enfatizou que tais casamentos e conversões forçadas representam graves violações dos direitos humanos fundamentais. Ele destaca que essas práticas minam as garantias constitucionais de liberdade religiosa, liberdade pessoal e dignidade humana. Em uma declaração pungente, Patrick afirmou que toda vítima merece proteção imparcial perante a lei, independentemente de sua fé ou origem.
Um Padrão Preocupante de Violações de Direitos Humanos no Paquistão
O caso de Aneeqa não é isolado no Paquistão. Organizações de direitos humanos, como a Portas Abertas e o Movimento para a Solidariedade e Paz, estimam que centenas, senão milhares, de meninas e jovens mulheres de minorias cristãs e hindus são sequestradas, forçadas a se converter ao islamismo e a casar anualmente. Essa prática é facilitada por brechas legais, falhas na aplicação da lei e uma cultura de impunidade que afeta desproporcionalmente as comunidades mais vulneráveis.
A própria Aneeqa, superando o medo, decidiu compartilhar sua história com a esperança de evitar que outras meninas sofram o mesmo destino. Ela aconselha jovens cristãs no Paquistão a desconfiarem de falsas promessas de amor e casamento de homens não cristãos e a comunicarem imediatamente qualquer assédio ou pressão à família. A adolescente alerta que, quanto mais a vítima tenta lidar sozinha com a situação, mais encorajado o agressor se torna, transformando a rejeição em uma questão de ego e vingança para eles.