A Comissão de Caridade, principal órgão regulador de entidades filantrópicas na Inglaterra e no País de Gales, emitiu advertências formais contra duas dioceses da Igreja da Inglaterra – Liverpool e Chelmsford. A medida regulatória decorre de graves deficiências identificadas na forma como essas jurisdições eclesiásticas administraram denúncias relacionadas à salvaguarda, especificamente alegações de má conduta envolvendo o Dr. John Perumbalath, ex-Bispo de Liverpool. A investigação culminou na caracterização de 'má gestão' por parte das dioceses.
A apuração da Comissão revelou que ambas as instituições não só falharam no processamento adequado das denúncias de salvaguarda, como também apresentaram lacunas na supervisão por parte de seus conselhos de curadores. A ausência de protocolos e procedimentos claros impediu que os curadores, cientes das alegações, agissem com a devida prontidão, comprometendo a avaliação integral dos riscos e a implementação de medidas corretivas. Adicionalmente, as acusações, que emergiram originalmente em 2023, não foram reportadas como incidentes graves e só foram formalizadas à Comissão em 2025, após serem noticiadas pela imprensa.
As Alegações e as Investigações Internas
As denúncias que motivaram a ação regulatória envolvem o Dr. John Perumbalath, que se desligou do cargo em janeiro de 2023, e que mantém sua posição de inocência. Uma das acusadoras relatou ter sido alvo de um beijo não consensual e apalpada por Perumbalath em Chelmsford, durante o período em que ele exercia a função de Bispo de Bradwell. Uma investigação interna conduzida pela Igreja da Inglaterra sobre este incidente concluiu que não havia 'caso a ser respondido', indicando a insuficiência de provas para prosseguir com um processo formal disciplinar.
Paralelamente, a Reverenda Bev Mason, também bispa, apresentou alegações de agressão sexual contra Perumbalath. Contudo, estas últimas não foram investigadas pela Igreja, que invocou a expiração do prazo legal para tal apuração, um ponto que frequentemente gera debates sobre a justiça para vítimas de abusos.
Reações das Dioceses e Compromissos Futuros
A Bispa de Chelmsford expressou 'discordância respeitosa' com algumas das constatações da Comissão, classificando a advertência oficial como 'desproporcional'. Apesar das ressalvas, a diocese assegurou total cooperação com os procedimentos da Comissão, reforçando a seriedade com que aborda a salvaguarda e a robustez de sua resposta ao complexo caso, afirmando ter adotado uma abordagem centrada nas vítimas.
Em contraste, o Presidente dos Curadores do Conselho Diocesano de Finanças de Liverpool aceitou integralmente as conclusões da Comissão, apresentando desculpas pelas falhas apontadas. A diocese informou já ter implementado alterações significativas para aprimorar os procedimentos de comunicação e governança, comprometendo-se com um processo contínuo de aprendizado, responsabilização e melhoria, visando garantir um ambiente eclesiástico seguro e inclusivo para todos.
A Importância da Salvaguarda e o Papel da Regulação
O conceito de salvaguarda é fundamental para a atuação de instituições de caridade e eclesiásticas, referindo-se ao conjunto de ações destinadas a proteger crianças, jovens e adultos em situação de vulnerabilidade contra danos, abusos e negligência. Constitui um dever ético e legal para as organizações assegurar ambientes seguros e estabelecer procedimentos rigorosos para o tratamento de denúncias. A Comissão de Caridade desempenha um papel crucial como guardiã desse princípio, zelando para que as entidades sob sua jurisdição cumpram as normativas de governança e proteção.
A interpretação de 'nenhum caso a ser respondido' em uma investigação interna da Igreja, como no contexto do Dr. Perumbalath, significa que não foram encontradas evidências suficientes para prosseguir com um processo disciplinar formal, mas não necessariamente anula a validade das alegações. Similarmente, a questão do prazo legal expirado, que impediu a investigação de outra denúncia, expõe um dilema inerente aos sistemas jurídicos, onde a busca por justiça pode ser limitada por formalidades processuais, gerando debates sobre a adequação dos mecanismos para vítimas de abusos históricos.