Uma mulher norte-coreana, identificada apenas como Eun-Yeong por motivos de segurança, experimentou uma profunda transformação espiritual enquanto buscava refúgio em uma floresta na China, após fugir de seu país natal. Sua conversão ao cristianismo foi marcada por um sonho que descreveu como um chamado pessoal de Jesus, seguido por um encontro crucial com um evangelista que ofereceu suporte humanitário e espiritual. A jornada de Eun-Yeong e seu marido, Cheol-Ho – cujos nomes também foram alterados para protegê-los –, culminou não apenas na adoção de uma nova fé, mas na audaciosa decisão de retornar à Coreia do Norte para compartilhar o Evangelho, desafiando um dos regimes mais repressivos do mundo em relação à liberdade religiosa.
O Contexto da Fuga e da Perseguição
A história de Eun-Yeong e Cheol-Ho se desenrola no cenário da severa repressão religiosa imposta pelo regime norte-coreano. A prática de qualquer fé que não seja o culto à dinastia Kim é rigorosamente proibida, e cristãos são frequentemente sujeitos a prisão, tortura e até execuções. Muitos norte-coreanos tentam a perigosa fuga para a China, na esperança de alcançar a liberdade, mas enfrentam o risco constante de serem capturados e repatriados, o que geralmente acarreta punições brutais, incluindo campos de trabalho forçado.
Nesse contexto de extrema vulnerabilidade, a Missão Portas Abertas, uma organização internacional dedicada a apoiar cristãos perseguidos em todo o mundo, atua por meio de parceiros como o evangelista Cho (nome também alterado). Cho dedica-se a procurar fugitivos norte-coreanos escondidos em áreas remotas da China, oferecendo não apenas assistência material vital, mas também apoio espiritual em um ambiente onde a fé cristã é clandestina e perigosa.
O Encontro e a Construção de Confiança
Foi durante uma de suas patrulhas que Cho localizou Eun-Yeong e Cheol-Ho em uma colina. A aparência desgastada e as vestimentas precárias do casal denunciavam sua condição de refugiados. A abordagem inicial de Cho, apesar de amigável, foi recebida com desconfiança e um grito de alerta de Eun-Yeong: “Fique longe de nós. Deixe-nos em paz!”. O marido complementou a recusa, expressando a falta de necessidade de auxílio. A cautela dos fugitivos é compreensível, dada a realidade de que muitos são caçados ou traídos por agentes do regime.
Demonstrando persistência e compaixão, Cho respondeu, assegurando que não tinha intenção de prejudicá-los e que seu objetivo era oferecer ajuda. Ele deixou suprimentos essenciais – comida, água e materiais para um abrigo improvisado – no chão e se afastou, permitindo que o casal, cautelosamente, se aproximasse para se alimentar. Este gesto inicial de bondade desinteressada começou a quebrar a barreira do medo e da desconfiança.
A Semente da Fé e o Sonho Revelador
Em retornos subsequentes, Cho continuou a levar suprimentos e, aos poucos, construiu um laço de confiança. Durante uma dessas visitas, Eun-Yeong questionou o motivo de sua dedicação semanal em levar comida às montanhas. A resposta de Cho foi direta: “É por causa de um homem chamado Jesus. Ele é o Filho de Deus e a ama muito.” Neste momento, o evangelista ofereceu à mulher uma Bíblia. Inicialmente, ela recusou o presente, declarando sua falta de crença em Deus. Contudo, Cho insistiu, deixando claro que a decisão de ler ou não era dela.
Dias depois, o evangelista encontrou uma Eun-Yeong visivelmente transformada. Ela relatou ter tido um sonho vívido na noite anterior. “Havia uma pessoa no meu sonho e Ele me chamou pelo meu nome”, disse ela, reconhecendo a figura como o Jesus mencionado no livro. Confusa, mas curiosa, Eun-Yeong expressou o desejo de saber mais sobre Ele. Aproveitando a abertura, Cho explicou o Evangelho e convidou o casal a se hospedar em um local seguro, onde poderiam aprofundar seus conhecimentos sobre as Escrituras. O convite foi aceito prontamente, para a alegria do evangelista.
Conversão e a Missão Audaciosa de Retorno
No abrigo seguro, Eun-Yeong e Cheol-Ho tiveram a oportunidade de interagir com outros cristãos norte-coreanos, participar de estudos bíblicos aprofundados e, finalmente, decidiram abraçar a fé em Jesus. Este passo fundamental levou a uma decisão ainda mais extraordinária e perigosa: ambos optaram por retornar à Coreia do Norte. O objetivo era claro: compartilhar o amor de Deus e a mensagem do Evangelho com seus compatriotas, cientes dos riscos imensos envolvidos em desafiar as leis antiecléticas do regime.
Enquanto Cho continuava seu ministério nas florestas da China, ele orava constantemente pelo casal. Um ano após o retorno de Eun-Yeong e Cheol-Ho, uma mensagem chegou, trazendo notícias encorajadoras: “Nossa família aumentou para cinco”. Isso significava que, através de seus esforços, mais três norte-coreanos haviam aceitado a Jesus, evidenciando o impacto de sua corajosa missão clandestina.
A Coreia do Norte permanece no topo da Lista Mundial da Perseguição da Missão Portas Abertas de 2026, sendo classificada como o país mais difícil para se viver como cristão. O testemunho de Eun-Yeong e Cheol-Ho é um lembrete vívido da resiliência da fé humana e do poder transformador da esperança, mesmo nos ambientes mais hostis e sob ameaça constante.