O Reino Unido está experimentando um fenômeno social e religioso notável: um aumento expressivo nas vendas da Bíblia e uma crescente abertura à espiritualidade, especialmente entre a Geração Z. Esse movimento contraria a narrativa predominante de declínio religioso no país, impulsionando líderes eclesiásticos a preparar as comunidades de fé para acolher essa nova onda de curiosidade e engajamento.
Dados recentes da indústria editorial revelam que as vendas da Bíblia no Reino Unido atingiram 6,3 milhões de libras esterlinas, um aumento impressionante de 134% em um período recente, sinalizando uma reavaliação do panorama religioso. Rachel Jordan-Wolf, missióloga e diretora executiva da Hope Together, descreve o momento como "crucial" para a Igreja britânica, que precisa transicionar de uma mentalidade de retração para uma de potencial expansão.
A Redescoberta da Espiritualidade Juvenil
A percepção de uma mudança nas atitudes religiosas é corroborada pelo relatório "Belief in Britain", de Christopher Gasson, baseado em uma pesquisa da OnePoll que entrevistou 10 mil pessoas. O estudo indicou uma elevação perceptível na crença em Deus e na abertura espiritual entre a faixa etária mais jovem, com a Geração Z (nascidos entre meados dos anos 1990 e meados dos anos 2010) demonstrando particular interesse.
Cerca de dois terços (64%) dos entrevistados da Geração Z identificaram-se como "espirituais", um contraste marcante com os "Baby Boomers" (nascidos entre 1946 e 1964), onde apenas 35% compartilhavam essa descrição. O levantamento também apontou que indivíduos de meia-idade são mais propensos a se declararem ateus. Adicionalmente, 54% dos participantes se identificaram como cristãos, um percentual superior ao censo de 2021, que, pela primeira vez na história moderna do país, registrou que menos da metade da população se identificava como cristã, evidenciando uma inversão inesperada da tendência de secularização.
Debates Metodológicos e a Necessidade de Cautela
Apesar do entusiasmo, alguns pesquisadores aconselham cautela na interpretação desses dados. O respeitado Pew Research Center, uma instituição americana de pesquisa não partidária, questionou a validade de alegações de um "reavivamento" religioso generalizado no Reino Unido. A crítica reside no fato de que muitas dessas conclusões de alto perfil baseiam-se em pesquisas "opt-in" (participação voluntária), que podem ter um viés de seleção, ao invés de "amostras populacionais aleatórias", consideradas metodologicamente mais robustas por representarem melhor a população geral.
Essa ressalva foi direcionada, em particular, ao relatório "The Quiet Revival" de 2025 (sic), encomendado pela Sociedade Bíblica, que indicava um aumento significativo na frequência à igreja e na fé entre jovens de 18 a 34 anos na Inglaterra e no País de Gales. A Sociedade Bíblica, contudo, defendeu veementemente sua metodologia. Rachel Jordan-Wolf, embora reconheça a "velocidade surpreendente" das mudanças, mantém a posição de que a Igreja britânica "não está em declínio".
Iniciativas para o Engajamento com a Fé
Para facilitar o acesso à fé e responder a essa demanda crescente, a Hope Together, sob a liderança de Jordan-Wolf, implementou a iniciativa "Great Gospel Giveaway", que resultou na distribuição de mais de 140 mil cópias dos Evangelhos em todo o Reino Unido no ano passado. O programa visa incentivar as igrejas a oferecer gratuitamente os Evangelhos em espaços públicos como ruas comerciais, cafés, escolas e centros comunitários, removendo barreiras financeiras e sociais.
Livreiros cristãos, como os da GLO Bookshop em Glasgow, corroboram a tendência, relatando um aumento de clientes jovens que procuram as Escrituras, frequentemente após pesquisas online ou visitas a igrejas. Jordan-Wolf ressalta a importância de as comunidades de fé estarem visivelmente preparadas para esses encontros. A Hope Together está organizando a próxima fase do "Great Gospel Giveaway" e um webinar em 2 de março, intitulado "Reaching and Responding to an Open Generation", para capacitar congregações a responderem com confiança e praticidade à curiosidade espiritual emergente.
A missióloga conclui enfatizando a oportunidade única que se apresenta: "Deus está fazendo algo novo, e somos convidados a responder", instigando as comunidades a apoiar "cada jovem adulto e jovem que conhecemos — ou com quem nossa igreja possa entrar em contato — a receber um Evangelho".