Em meio a um conflito que já dura uma década e que viu sua fase mais intensa após a invasão em larga escala de 2022, a perseguição religiosa nos territórios ucranianos sob ocupação russa tem demonstrado um agravamento significativo. Conforme evidenciado por organizações de direitos humanos e lideranças religiosas, Moscou orquestra uma campanha metódica de hostilização, violência e cerceamento, tendo como alvos principais comunidades protestantes e as vertentes da Igreja Ortodoxa que mantêm independência do Patriarcado de Moscou. O objetivo é claro: reconfigurar o panorama espiritual local, compelindo a adesão a uma agenda que se alinha aos desígnios geopolíticos e militares da Federação Russa.
Desde o escalonamento do conflito em fevereiro de 2022, as forças de ocupação russas instituíram um conjunto de regras estritas para restringir ou erradicar organizações religiosas percebidas como dissidentes. Igrejas protestantes, em especial, têm sido compelidas ao fechamento, enfrentam obstáculos operacionais severos e são submetidas a uma intensa pressão para se registrarem de acordo com a legislação russa.
Ataque Coordenado a Congregações Protestantes
Este ato de registro é amplamente visto como um reconhecimento implícito da soberania russa, um preceito que muitas comunidades optam por rejeitar, preferindo a clandestinidade à submissão ao controle imposto. A documentação disponível aponta para uma série de prisões, sessões de interrogatório e o confisco de bens eclesiásticos.
Um exemplo notório é o do Pastor Sergey Ivanov, figura proeminente da fé batista no sul da Ucrânia ocupada. Ele foi detido sob alegações de colaborar com o governo ucraniano e por se recusar a registrar sua igreja conforme as novas normativas. Fiéis de sua congregação testemunharam a interrupção de celebrações e o encerramento forçado do templo durante o período de detenção do pastor, um reflexo das táticas de pressão sobre as comunidades evangélicas e batistas.
Restrições Afetam Igrejas Ortodoxas Independentes
O cerceamento religioso estende-se para além das comunidades protestantes, atingindo também os clérigos da Igreja Ortodoxa da Ucrânia (OCU). Esta denominação, que proclamou sua autonomia do Patriarcado de Moscou em 2018, enfrenta restrições consideráveis. Um caso ilustrativo ocorre na Crimeia, península anexada pela Rússia em 2014, onde o Padre Serhii Mykhalchuk tem sido alvo de assédio persistente e disputas jurídicas.
A paróquia sob sua liderança recebeu uma ordem de despejo da catedral em Simferopol, e os ativos da igreja foram confiscados, em grande parte devido à recusa da comunidade em se submeter às leis religiosas russas, que buscam vincular as estruturas eclesiásticas a Moscou.
Cooptação Religiosa como Estratégia de Controle Geopolítico
Especialistas em direitos humanos e analistas políticos convergem na interpretação dessas ações como componentes de uma estratégia abrangente de Moscou. O objetivo é desarticular a sociedade civil ucraniana independente, substituindo-a por estruturas que demonstrem subserviência à autoridade russa. Grupos protestantes, conhecidos por sua atuação em projetos sociais e de assistência humanitária em toda a Ucrânia, são frequentemente examinados com desconfiança e acusados pelas autoridades ocupantes de manterem supostos vínculos com nações ocidentais.
Concomitantemente, observa-se que as autoridades russas se valem de segmentos da Igreja Ortodoxa Ucraniana (UOC) — que historicamente possui laços com a Igreja Ortodoxa Russa — para avançar sua agenda geopolítica. Nessas áreas ocupadas, a UOC tem sido cada vez mais instrumentalizada como veículo para a disseminação de narrativas políticas e para o exercício de controle administrativo, o que acarreta a dissolução das distinções entre a esfera religiosa e a governamental. Para muitos observadores, essa tática constitui uma clara cooptação de entidades religiosas, utilizada para validar a hegemonia russa sobre os territórios invadidos.
Consequências Duradouras para a Liberdade de Crença
A despeito dos esforços de muitos fiéis ortodoxos para exercerem sua crença sem ingerências políticas, as potências ocupantes favorecem ativamente o clero leal a Moscou, enquanto sistematicamente marginalizam ou expelem líderes religiosos fiéis a Kyiv. Monitores de direitos humanos advertem que a consequência agregada é uma drástica redução da liberdade religiosa, convertendo espaços de culto em ferramentas de dominação estatal e acentuando a desafeição das comunidades locais.
A mira direcionada a múltiplas instituições religiosas sublinha uma estratégia mais vasta de moldar a sociedade ucraniana sob a égide russa, consolidando a situação das comunidades de fé como um barômetro essencial para a condição dos direitos humanos no contexto do conflito.