Arqueólogos da Universidade de York anunciaram a descoberta de vestígios do raro e cobiçado corante púrpura tíria em túmulos de bebês romanos na cidade de York, na Inglaterra. O achado, datado do final do século III ou início do século IV d.C., período em que York era a proeminente cidade de Eboracum no Império Romano, representa a primeira confirmação do uso desse pigmento luxuoso em contextos funerários romanos na região. A presença do tecido tingido com púrpura tíria, uma cor historicamente associada à realeza e à mais alta aristocracia, sugere que os infantes pertenciam a famílias de extraordinário prestígio e riqueza.
Detalhes da Descoberta e Preservação Excepcional
Os fragmentos do corante foram identificados em locais de sepultamento de dois bebês. Um deles jazia em um caixão de pedra ao lado de dois adultos, enquanto o outro foi encontrado em um caixão de chumbo. Análises químicas nos restos mortais e nos tecidos preservados revelaram a presença da púrpura. Segundo um comunicado da Universidade de York, de 30 de abril, os bebês estavam envoltos em um fino tecido de púrpura tíria, que era "adornado com fios de ouro – um tecido do mais alto status e luxo possível conhecido no mundo romano".
A notável preservação dos delicados tecidos ao longo dos séculos foi atribuída a um peculiar ritual funerário romano. Os corpos, já vestidos, eram cobertos com gesso líquido, que endurecia gradualmente, protegendo não apenas as marcas e os fragmentos dos têxteis, mas também os corantes e substâncias originais neles presentes. Essa técnica permitiu que vestígios de um material tão efêmero sobrevivessem até os dias atuais, oferecendo insights valiosos sobre as práticas e o status social na Roma Antiga.
O Valor Incalculável da Púrpura Tíria no Mundo Antigo
Historicamente, o corante púrpura tíria era um símbolo inequívoco de poder, riqueza e divindade. Sua produção, extraída das conchas de moluscos marinhos (principalmente da família Murex), era extremamente complexa e laboriosa, exigindo dezenas de milhares de moluscos para produzir apenas alguns gramas de pigmento. Devido a essa dificuldade e à exclusividade, o preço da púrpura tíria podia exceder em até três vezes o valor do ouro durante o período romano, sendo seu uso restrito a imperadores e membros da mais alta aristocracia imperial.
A professora Maureen Carroll, diretora de projeto do Departamento de Arqueologia da Universidade de York, enfatizou a importância da descoberta: "Pela primeira vez, agora temos confirmação do uso deste corante caro na York romana, indicando que os habitantes ricos da cidade tinham acesso a mercadorias caras e exóticas do outro lado do império." Este é um dos raros casos de identificação do corante em têxteis romanos no Reino Unido, consolidando o status de Eboracum como um importante centro urbano e comercial do império.
Referências Bíblicas ao Precioso Pigmento
A alta estima pela púrpura não se limitava ao Império Romano, sendo amplamente reconhecida em diversas culturas antigas e mencionada em várias passagens bíblicas, o que atesta sua relevância social e simbólica. No livro de Atos (16:14), por exemplo, a púrpura é associada à comerciante Lídia de Tiatira, descrita como uma "mulher da cidade de Tiatira chamada Lídia, comerciante de tecidos púrpura", indicando seu envolvimento com um comércio de alto valor e sua proeminência social.
Outra menção significativa ocorre em Marcos (15:17), onde os captores de Jesus Cristo o vestem com um manto púrpura como um ato de escárnio. "E o vestiram com um manto púrpura; e, depois de trançar alguns espinhos formando uma coroa, a colocaram sobre ele", descreve o versículo. Este gesto tinha a intenção de ridicularizar Jesus, utilizando a cor associada à realeza para subverter seu significado e zombar de sua pretensa autoridade, demonstrando o simbolismo profundamente arraigado da cor.
O Intrincado Processo de Extração
A obtenção do corante púrpura tíria era um processo artesanal e complexo, que exigia conhecimentos específicos de química e grande esforço. O arqueólogo Golan Shalvi, em entrevista à New Scientist, detalhou que os moluscos, ao serem esmagados, liberavam um fluido esverdeado. Este fluido, quando exposto ao ar e à luz solar, passava por um processo de oxidação que o transformava na tonalidade roxa desejada. No entanto, para que se tornasse um corante estável e quimicamente ligável aos tecidos, ele "precisava passar por uma solução complexa por meio de várias etapas químicas", um testemunho da sofisticação da química tintureira da antiguidade e do domínio técnico dos artesãos da época.