O regime islâmico iraniano deu um passo significativo em sua política de cerceamento à liberdade de expressão e religiosa, ao classificar recentemente diversas redes de televisão cristãs, juntamente com uma vasta gama de veículos de notícias internacionais, plataformas digitais e indivíduos, como "organizações de mídia hostis". A medida, anunciada pelo Ministério da Inteligência de Teerã, impõe severas consequências legais, incluindo acusações de espionagem, a qualquer pessoa que venha a colaborar com as entidades e personalidades listadas.
Ampla Abrangência da Lista de "Mídia Hostil"
A nova diretriz iraniana, que engloba mais de 300 nomes, aponta explicitamente redes evangélicas como Sat-7, Nejat, Seven e Mohabat TV, conforme monitoramento da Article 18, uma organização dedicada aos direitos humanos no Irã. Além destas, a relação inclui proeminentes mídias em língua persa, como a BBC Persian e a Iran International, e uma infinidade de sites, canais de YouTube e perfis em redes sociais como Instagram, Facebook, X (anteriormente Twitter) e Telegram. A abrangência da lista demonstra a definição elástica de "hostilidade" que o governo aplica a qualquer elemento considerado contrário à sua ideologia. Indivíduos notáveis, entre jornalistas, ativistas e figuras da oposição, como Hananya Naftali, Reza Pahlavi, Masih Alinejad e Shirin Ebadi, também foram incluídos, sublinhando a estratégia de supressão da dissidência em múltiplas frentes.
Consequências Legais e a Interpretação de "Hostilidade"
O Ministério da Inteligência emitiu um aviso claro: qualquer forma de interação com as entidades e indivíduos designados, mesmo o compartilhamento de fotos ou vídeos, pode resultar em processos judiciais sob as rigorosas leis de espionagem do país. Tais regulamentações já levaram à condenação de pelo menos cinco cristãos, que enfrentaram sentenças cumulativas superiores a 40 anos de prisão. As acusações incluíam serem "mercenários do Mossad" e de se engajarem em "evangelização sionista cristã" após "treinamento no exterior", ilustrando a gravidade das sanções impostas pela justiça iraniana.
Fred Petrossian, da Article 18, comentou sobre a natureza ambígua do termo "hostil" no vocabulário oficial da República Islâmica. Ele explicou que, "na literatura oficial da República Islâmica, 'hostil' refere-se a um indivíduo ou instituição que, do ponto de vista do governo, é hostil ou combatente ao sistema da República Islâmica". Petrossian acrescentou que a aplicação desse conceito "é muito vago e amplo, e pode incluir desde críticas e atividades midiáticas até o que é considerado 'propaganda contra o sistema'. Na prática, não tem limites", conferindo ao regime uma vasta margem de discricionariedade para reprimir a oposição.
O Papel da Mídia Cristã Externa no Cenário Iraniano
Por mais de quatro décadas, desde a Revolução Islâmica de 1979, o governo iraniano tem implementado um controle sistemático sobre as liberdades religiosas, culminando no fechamento de igrejas e na proibição de qualquer atividade missionária dentro de suas fronteiras. Nesse cenário restritivo, as redes de televisão cristãs que operam de fora do Irã tornaram-se cruciais. Elas oferecem estudos bíblicos, sermões e programas evangelísticos em farsi, preenchendo o vácuo deixado pelas restrições internas e alcançando milhões de lares iranianos.
Canais como a SAT-7 são exemplos proeminentes desses esforços, transmitindo conteúdo cristão, incluindo séries populares como "The Chosen", via satélite, conseguindo assim contornar a rigorosa censura estatal e manter a conexão com a comunidade cristã no país.
Perseguição Religiosa e a Resiliência da Igreja Subterrânea
O Irã, uma nação de maioria muçulmana e regida pela Sharia – a lei islâmica –, mantém uma política de intensa perseguição contra minorias religiosas, especialmente os cristãos. A prática do cristianismo é severamente limitada, com proibições explícitas sobre a construção de novos templos, a distribuição de Bíblias em farsi e qualquer forma de evangelismo. A conversão do Islã para outra fé, considerada apostasia, é um crime grave sob a Sharia, que pode acarretar prisão e tortura para líderes religiosos e convertidos.
Apesar do ambiente hostil e das severas sanções, a igreja subterrânea no Irã tem experimentado um crescimento notável, conforme relatórios da Article 18 e outras fontes. A gravidade da situação é sublinhada pela Missão Portas Abertas, que, em sua Lista Mundial da Perseguição 2024, classificou o Irã na 10ª posição entre os países onde os cristãos enfrentam a mais intensa perseguição. Este cenário de adversidade, paradoxalmente, tem fortalecido a fé de muitos, consolidando a resiliência das comunidades cristãs iranianas.